O corpo que não descansa: o impacto da saúde mental em Portugal

Há uma fadiga que não passa com o sono. Um esgotamento que se instala lentamente como humidade nas paredes, sem data de início precisa e sem culpado visível.
É sobre esta fadiga que a OCDE veio finalmente falar em números, no seu relatório de abril de 2026, The Economic Case for Preventing Mental Ill Health. Mais de um em cada cinco europeus vive com alguma perturbação mental e este peso reduz a esperança de vida saudável em 2,5 anos, afectando de modo desproporcional os jovens, as mulheres e quem tem estatuto socioeconómico mais baixo. O que não aparece nos gráficos é o que mais importa: o custo humano do silêncio.
Existe uma lógica perversa naquilo que Lacan chamou o discurso do capitalista. Nesta forma de laço social o sujeito é convocado a ser ao mesmo tempo trabalhador e produto. A sua energia, o seu tempo, o seu desejo: tudo deve circular sem pausa e sem queixa. O resultado é um sujeito exausto que não sabe que está exausto. Christophe Dejours nomeia este fenómeno como sofrimento invisibilizado, a dor psíquica que se aprende a esconder porque mostrar vulnerabilidade é, numa cultura do desempenho, uma forma de fracasso. Nos países da OCDE a taxa de perturbações mentais aumentou cerca de 21% nas últimas duas décadas. Este dado não é acidente. É a factura acumulada de décadas em que o corpo foi tratado como recurso e não como habitação de um ser.
Estima-se que cerca de 67,5% das pessoas que necessitam de cuidados de saúde mental na UE não têm acesso a tratamento. Mais de dois em cada três. Quando o Estado delega no indivíduo a responsabilidade de se curar sem lhe dar os meios para o fazer está a praticar uma violência por omissão. Os sintomas de exaustão psicológica raramente chegam ao consultório com etiqueta. Chegam como insónia, como dores difusas, como irritabilidade sem causa aparente. Chegam ao médico de família que os medica. Chegam ao trabalho que os ignora. A herança colonial não dita, o pacto de silêncio europeu sobre as suas próprias cicatrizes e o ideal normativo que decide quem merece visibilidade: tudo isto produz sofrimento psíquico real e frequentemente não tratado. O corpo que não descansa é muitas vezes o corpo que carrega o que a sociedade prefere não ver.
A crise de saúde mental custa 76 mil milhões de euros por ano às economias europeias. É um número útil porque faz mover governos que não se movem com o sofrimento mas se movem com o défice. Há porém uma fatura que não está nesse cálculo: o custo dos anos vividos em modo de sobrevivência, das relações destruídas pela irritabilidade de quem não recebeu ajuda a tempo e do crescer numa casa onde o adulto estava demasiado esgotado para estar presente.
A psicanálise sabe desde Freud que o sintoma não é o inimigo mas a mensagem. E esta mensagem diz algo simples: as pessoas estão a sofrer e esse sofrimento tem causas que não são pessoais. O impacto da saúde mental em Portugal não se resolve com mindfulness de aplicação. Resolve-se com políticas, com acesso e com escuta. Cuidar de si é cada vez mais apresentado como responsabilidade individual como se a ansiedade fosse um defeito de fábrica e não uma resposta razoável a condições de vida irrazoáveis. Escutá-la é o primeiro acto clínico. Mas também o primeiro acto político.
Apoio em Portugal: Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24 — 808 24 24 24.