O luto de quem migra
Há uma perda que não tem velório.
Quem migra não perde apenas um endereço. Perde a paisagem que conhecia de cor, o sotaque que não precisava explicar, a rede de pessoas que sabiam quem se era antes. E, no entanto, essa perda raramente é nomeada como luto — porque migrar costuma ser narrado como conquista, como recomeço, como oportunidade.
E é também tudo isso. Mas não só.
O que a clínica escuta, muitas vezes, é o que fica do lado de fora dessa narrativa de sucesso: a saudade que envergonha, a sensação de estar sempre um pouco fora de lugar, a culpa de ter partido, o cansaço de recomeçar do zero numa língua que ainda resiste na boca.
Freud, ao falar do trabalho de luto, descreveu-o como um processo lento de desligamento — não de esquecimento, mas de elaboração. É preciso tempo para que aquilo que se perdeu encontre um novo lugar dentro de quem perdeu. Com a migração não é diferente. O país que ficou para trás não desaparece: ele precisa ser reposicionado, reintegrado de outra forma na história de cada um.
O problema é quando esse luto não encontra espaço para existir. Quando a pressa de “se adaptar” exige que a pessoa finja que nada doeu. Aí o que ficou sem ser elaborado retorna — em forma de sintoma, de angústia difusa, de uma tristeza que não sabe dizer seu nome.
O espaço de escuta não acelera esse processo. Ele apenas garante que ele possa, finalmente, acontecer.